LONGA DURAÇÃO
TEMPO-EM-IMAGEM NAS FOTOGRAFIAS DE JOSÉ LUÍS NETO

I
O estúdio de José Luís Neto sempre teve, tanto quanto pude constatar em várias visitas, as paredes brancas e completamente nuas – à excepção, nos últimos meses, de uma folha de papel fotográfico sensibilizado afixada num dos muros, mais ou menos à altura dos nossos olhos. Esta folha serviu de base para o projecto que agora apresenta: dedicou-se a fotografar aquele papel, acoplando à câmara motores que permitem rodar o filme a uma velocidade mais ou menos constante (consoante o motor, o mesmo tipo de rolo pode demorar entre dois e quarenta e cinco minutos a ser exposto). Também utilizou várias aberturas de diafragma e diferentes máscaras, fazendo chegar ao filme distintas parcelas e intensidades de luz. Deste processo resultaram bandas que, com intermitências mais ou menos regulares, vão, num sistema de barras verticais, do preto ao branco, passando por várias gradações de cinzentos. Para ocupar a sala de exposições temporárias do CAM, José Luís Neto decidiu simplesmente ampliar algumas destas películas e dispô-las ao longo das paredes, de forma quase ininterrupta, à altura dos olhos.
Note-se, podemos começar por aqui, que o nome da exposição faz automaticamente ranger uma determinada ontologia temporal da imagem fotográfica. A exposição chama-se continuum.


II
À partida tudo pareceria coincidir para uma classificação deste projecto como um trabalho meticuloso e reflexivo sobre o próprio medium: a preocupação com a luz, o elemento tautológico (quase fetichista) do papel fotográfico, a exploração das potencialidades do aparelho “assistido” (colocando a câmara em pé de igualdade com o elemento fotografado). Mas o óbvio, neste caso, consegue ser bastante obscuro: continuum está muito longe de ser uma qualquer utopia auto-reflexiva ou centrípeta, apresentando-se antes como uma inteligente destabilização ontológica do medium – senão uma sua caricatura. Como? Em primeiro lugar, porque insere um elemento temporal que nunca associamos à fotografia, e que é a duração – já veremos como; depois, porque o resultado deste processo fotográfico é absolutamente opaco, escultórico quase; finalmente, porque riscando a primeira camada de uma aparentemente exclusiva precisão percebemos que este projecto se constrói no território da improvisação (e serão incompatíveis, rígido padrão e contingência acidental?).

Comecemos pelo tempo. continuum atrapalha exclusivismos ontológicos, e pelo menos em dois sentidos, ambos relacionados com questões de duração. Porque nos leva a reflectir sobre o momento exacto em que uma fotografia passa a existir – e neste caso nem sequer podemos colocar como hipótese a altura do disparo, porque ele não existe; e, mais importante, porque perturba a ideia do fotográfico como um desvio absoluto, ou melhor um corte (termo ubíquo no pensamento sobre o fotográfico), com qualquer tipo de continuidade.
À ideia da fotografia como qualquer coisa que não se pode desenvolver no tempo, como elemento que fixa e congela por inelutável vocação (que também não deixa de ser), José Luís Neto contrapõe a possibilidade de uma narrativa mecânica que nos faça experimentar a duração. Como? Tirando partido do potencial subversivo da anacronia (estas imagens não deixam de convocar, por mais distantes que estejam em termos iconográficos, os primórdios da fotografia) e furtando-nos, enquanto observadores, a quaalquer posto ideal de observação.


III
Duas banalidades que convém recordar: a fotografia, quer na sua prática quer na teoria construída à sua volta, nem sempre esteve ligada ao instante – e muito menos à ideologia do instante decisivo; existe sempre, no acto fotográfico, uma relação de dúvida, um ligeiro desnível (que pode resultar de uma fracção de segundo) entre visão e imagem1.
Se olharmos para a história da fotografia percebemos que ela nem sempre foi considerada a arte do instante, ou da abolição da duração – e desde logo por uma pura impossibilidade técnica, que obviamente excluía qualquer reflexão sobre a instantaneidade. Por outro lado, e porque sempre se relacionou a vida ao movimento – e a fotografia ao seu registo –, devemos lembrar que esse registo não é exclusividade de um congelar do fugaz, ou de uma imobilização do que se mexe: aquilo que as figuras voláteis e sem contornos das primeiras fotografias nos mostram é que determinadas precariedades técnicas, longos tempos de exposição por exemplo, talvez possam revelar a verdadeira imagem do tempo, ou, melhor ainda, aquilo a que já alguém chamou o tempo-em-imagem2.

Este projecto de José Luís Neto implica obviamente uma força motriz – porque o seu processo envolve movimento e porque a sua recepção o espelha: sem um ponto fixo de observação somos levados a percorrer o espaço, de forma mais ou menos intermitente, mais ou menos paralela às paredes. Como é uma reflexão sobre a experiência da duração na fotografia: não só porque o trajecto na sala implica tempo vivido, mas porque é impossível distinguir resultado final e o processo que lhe deu origem, ou esquecermos o tempo implicado nesse processo. Digamos que cada uma das bandas apresentadas é, muito antes de ser qualquer outra coisa, um registo da sua própria história, da sua própria feitura.

Para José Luís Neto a experimentação exige um esquema formal preciso: o processo que coloca em marcha continuum não é mais do que um rigoroso planeamento da surpresa, e não estranha por isso que seja um amante de música, de jazz em particular – é neste género musical que mais se agudiza a relação, nodal para o fotógrafo, entre padrão e improvisação. Como no jazz é difícil, senão irrisório, tentar apontar um princípio e um final. Note-se ainda que a relação entre a câmara e o fotógrafo pode neste caso ser descrita como uma relação entre instrumento e executante: porque se prolonga no tempo, porque é eminentemente física, porque opera desvios num programa definido a priori3, porque, dentro desse programa, José Luís se entretém, utilizando uma expressão de Walter Benjamin, a desferir golpes com a mão esquerda.


IV
A sucessão de bandas nesta sala do CAM é mais do que um friso de fotografias ao longo de uma parede. De certa forma elas constituem um segundo muro, transformando-se numa espécie de elemento escultórico (um objecto-imagem), ou pelo menos absolutamente opaco4. É que somos forçados a olhar para as fotografias, e não através delas – de facto, é o próprio olhar, e as condições da nossa experiência perceptiva, que devemos reconhecer, e nunca um determinado objecto. Até porque o que há para ver não poderia estar mais longe, em termos puramente visuais, do objecto que lhe deu origem: são zonas de rarefacção e saturação, sístoles e diástoles, aparentes contracções e dilatações – como qualquer parede, que serve para nos cegar perante o que acontece do seu avesso, também estas imagens de José Luís Neto impedem trocas imediatas com o mundo lá fora, o que só seria estranho se insistíssemos de forma cega na ideia que a fotografia tem uma relação absolutamente privilegiada com esse mundo.
Não é por isso um detalhe quee estas bandas se nos apresentem como uma espécie de grelha, esse modelo ordenado e planificado, tão discutido pela história da arte e repetidamente apresentado enquanto antinatural e antimimético – como "aquilo com que a arte se parece quando volta as costas à natureza"5.


V
Não existe nada que caracterize melhor o trabalho de José Luís Neto quanto a dilatação da dificuldade e da duração da percepção; porque não lhe interessa o reconhecimento dos objectos – há um efectivo voltar de costas ao mundo lá fora –, e porque é extremamente metódico nas suas operações temporais (vem colocar o tempo no centro do pensamento sobre a imagem). Em continuum, e utilizando o quase nada como dispositivo (máquina e folha branca), o fotógrafo conseguiu desviar o eixo da temporalidade que associamos à fotografia, ao mesmo tempo que difere a nossa percepção das imagens e nos obriga a situarmo-nos perante elas corporalmente (performativamente, mesmo). No fundo conseguiu, e sem recorrer aos artifícios da interactividade ou d’o espectador-é-quem-faz-a-obra, fazer equivaler feitura e recepção e as sua e nossa presenças – forçar a percepção ao reconhecimento da sua própria existência.

Ricardo Nicolau
  1. Ver a este propósito Jean-Marie Schaeffer, La imagen precaria. Del dispositivo fotográfico, Cátedra, Madrid, 1990 [publicado originalmente pela Éditions du Seuil, 1987, com o título L’image précaire. Du dispositif photographique], pp. 137-142 [“El astigmatismo”].
    Explica este autor como a celebração do instante se impôs progressiva e paulatinamente na história da fotografia, estando totalmente ausente nos seus dois primeiros decénios. Refere ainda como o instante decisivo se transformou mais tarde numa verdadeira ideologia, associando-o à emergência de um tipo de retrato (e a uma crescente necessidade de eleger o momento que melhor expressasse a individualidade do modelo), à decomposição do movimento (Marey, Muybridge) e ao desenvolvimento do fotojornalismo. Para sublinhar a eleição do instante como uma doxa (verdadeira ontologia temporal da imagem fotográfica), o autor relembra ainda como o acto fotográfico implica sempre uma duração (por mínima que seja) e se baseia em aberrações geométricas e astigmatismos espaciais e temporais: “o dispositivo fotográfico dissocia-se em focalidades e focos múltiplos, introduz a impureza material no modelo teórico que postula um ponto focal ideal que supostamente organiza a imagem na sua unicidade” (p. 139).
  2. Não me parece um acaso que anónimo, o projecto imediatamente anterior de José Luís Neto, exibido no âmbito da LisboaPhoto 2005, esteja tão intimamente ligado à diluição de contornos provocada pelos longos tempos de exposição das fotografias de finais do século XIX e início do século XX.
    O fotógrafo partiu de um núcleo fotográfico do Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa, o Fundo Antigo, que inclui um vasto conjunto de fotografias (perto de 3800 negativos) não atribuídas (de fotógrafo não identificado) e que constituem um inventário dos bairros históricos de Lisboa feito entre 1898 e 1908. Nestas imagens tratou de isolar o que em cada enquadramento estava em movimento e por isso atinge por vezes o limiar do desaparecimento – os transeuntes –, sublinhando, como em continuum, o trabalho do tempo (ou revelando a sua verdadeira imagem). A este propósito ver AA.VV., LisboaPhoto 2005, Câmara Municipal de Lisboa – Direcção Municipal de Cultura / PÚBLICO – Comunicação Social, SA, Lisboa, 2005, pp. 196-203.
  3. Isto é particularmente claro nas bandas em que a rebobinação é executada à mão, ou que resultam de uma aproximação e afastamento da câmara sujeita pelo fotógrafo.
  4. E não é a primeira vez que as imagens de José Luís Neto se constituem como muros. Veja-se o caso da série Carreira de Tiro (2000), em que, com um enquadramento frontal, se fotografam as marcas das balas em cortinas virgens pára-balas utilizadas no treino de alunos e agentes na Escola Superior de Polícia. Também aqui somos forçados a olhar para as fotografias, e não através delas, perdendo as imagens o seu potencial de janela para o mundo e tornando-se de certa forma opacas. Ver AA.VV., Metamorfoses do Real (Catálogo Encontros da Imagem 2004), AFCA – Associação Cultural de Fotografia e Cinema Amador de Braga, Braga, 2004, pp. 142 – 145.
  5. Krauss, Rosalind, “Grids”, in The Originality of the Avant-Garde and Other Modernist Myths, MIT Press, 1986, pp. 8 – 22 [p. 9]. Sobre este assunto ver também Krauss, Rosalind, “Agnes Martin: The /Cloud/”, in Bachelors, MIT Press, 1999.