I
"Sonhei com uma estátua, a Estátua da Luz. Havia uma tempestade e a estátua enterrava-se lentamente. Comecei a ficar angustiado e aflito. Tentei salvá-la, puxando-a pela cabeça. A cabeça separou-se do corpo e ficou nas minhas mãos. Nesse mesmo instante a estátua enterrou-se completamente e eu gritei “Não”. Nessa mesma noite pensei em fazer um projecto fotográfico a olhar para a lente da minha máquina fotográfica dizendo: "Não". Este pequeno texto de José Luís Neto, que se refere à série Não (1996), parte dessa sucessão de imagens que é um sonho, para a produção de uma única imagem, uma fotografia (na realidade, num trabalho serial).
O sonho é, de um ponto de vista ontológico, uma experiência fotográfica,na medida em que a sua origem radica numa imagem obsessiva1 do desejo, que trabalha a nossa vida por dentro e se manifesta privilegiadamente durante o sono. A relação que se estabelece neste trabalho entre imagem e sonho denuncia um desejo de estabelecer uma continuidade entre os dois estados (o sono e a vigília), como se o sujeito perseguido pela imagem de angústia a afrontasse transformando-a numa imagem diurna, numa representação visual, e, por essa forma — de diálogo — conseguisse "domesticá-la".
II
Uma das características da produção do trabalho de José Luís Neto é a engenhosidade dos seus projectos. Quer partam de uma pesquisa minuciosa da história de uma imagem, o a como em 22474 (2000), quer do resíduo de uma bala na cortina que a ampara numa carreira de tiro (Carreira de Tiro, 2000); quer ainda, como em O Beijo (1996) ou Não (1996), que agora se edita como objecto manuseável, se trate de obter uma imagem modificando a forma da própria máquina disparar, encontramo-nos face a um processo de produção que não está longe da inventividade científica. Se, como afirmava Freud, toda a arte está intimamente ligada à actividade mágica, estas duas têm em comum, particularmente no caso do trabalho de José Luís Neto, uma grande semelhança com a ideia de ritual, o que exige, em torno da ideia que o move, muita paciência e envolvimento, mesmo uma espécie de obsessão. Este lado obsessivo, que encontramos fortemente disseminado ao longo de todos os trabalhos — também, ou sobretudo, reflectido na questão referida da dimensão escolhida para a maioria das obras — está intrinsecamente ligado com a necessidade inconsciente de denegação: a uma indisciplina do desejo corresponde, no plano metafórico, um excesso de disciplina (do corpo e da mente), que encontra na curiosidade e no engenho a sua saída. O fotógrafo identifica-se assim a Dédalo, o engenheiro do labirinto, cuja métis (a manha, para os gregos)lhepermitiusafar-se do labirinto no qual ficaria aprisionado através da sábia construção das asas.
Mas esta engenharia não é gratuita, não se limita a um passatempo infantil, que iludiria as profundas questões da existência (o amor, a morte), que se colocam ao sujeito desde o momento em que nasce. Ela está sempre, de algum modo, direccionada para os núcleos semânticos mais recorrentes no trabalho deste fotógrafo, e que se geram no cruzamento entre a problemática da identidade e da auto-figuração e a do desejo, revelando as tensões decorrentes entre os dois.
III
Com este continuum de imagens, laboriosamente construído, que desestrutura completamente a figura, José Luís Neto permite-nos aceder à dimensão dramática que povoa o seu universo, dimensão essa que é desde logo preparada com a narração do sonho. O sonho é dramático — é um pesadelo —, e o seu dramatismo insinua-se nas imagens de uma forma completamente oposta. Enquanto na narração do sonho somos confrontados com um sentimento de catástrofe irremediável, na sequência de imagens essa catástrofe é transposta para um plano partilhável, de forma que aquilo que era uma experiência privada insuportável se torna numa experiência estética intensa. A ligação entre os dois níveis (sonho e representação) assegura por si mesma a comunicação do elemento dramático: a confusão deliberada entre imagens de proveniência puramente interna (do sonho) e imagens externalizadas/objectivadas (as fotografias), reflecte uma questão extremamente importante, característica da experiência contemporânea, marcada por uma dissolução das fronteiras entre o real e o irreal, a experiência empírica e a imaginação, por uma miscigenação entre a realidade e a ficção. É neste deslizar de fronteiras que o corpo e o rosto, como suportes identitários começam definitivamente a perder a sua delimitação precisa e a tornarem-se, por isso mesmo, o centro do discurso artístico a partir de metade do século XX.Este hibridismo presente na experiência contemporânea é central no sentido do trabalho de José Luís Neto, e em particular nesta série agora editada. Com Não, vemos configurado o cerco vida/morte no qual está enredado o sujeito e qualquer discurso por si produzido; ao pôr em causa as fronteiras da realidade põe-se também em cena a inquietação produzida pela consciência desse cerco.
A colocação desta questão em primeiro plano é a única saída para a lucidez.
Margarida Medeiros
Lisboa, 6 de Novembro de 2004
- Esta imagem obsessiva manifesta-se através de uma tendência para a repetição, no sonho, das ideias inconscientes.